Parei em Salvador antes mesmo de tomar banho na Smart Fit. Era uma pausa rápida, quase um pit stop humano, desses que a gente faz mais para não perder a própria memória do que para descansar o corpo. Resolvi escrever — ainda que às pressas — sobre um dos dias mais intensos do Feirou Brasil: aquele em que atravessei Recife, Maceió, Aracaju e Salvador praticamente sem respirar.

Precisei parar agora para registrar porque o tempo, que já era curto, começou a sumir de vez.

Antes, eu escrevia dentro do ônibus ou nas horas mortas das rodoviárias. Hoje, essas horas já não existem mais. As viagens passaram a ser noturnas e, nelas, eu durmo. Não por luxo, mas por sobrevivência. Saio por volta das 23h50 de uma cidade e chego às cinco da manhã na outra. Esse intervalo virou meu único espaço real de recuperação.

Se não durmo, não funciono.

E se não funciono, não há Feirou.

Saí de Recife à noite e cheguei em Maceió pela manhã. Maceió foi uma dessas cidades que deixam um gosto curioso, não de frustração, mas de “poderia ter sido mais”. A feira do Benedito Bentes não acontecia no seu melhor dia. Havia poucos feirantes, poucos fregueses e um sentimento geral de vazio. Os próprios trabalhadores diziam, com uma sinceridade quase resignada, que a feira estava às moscas.

Já na feira do Tabuleiro, o clima era outro, mais pesado. A possibilidade de desapropriação pairava no ar como uma nuvem baixa. Feirantes receosos, falas contidas, olhares que mediam cada palavra antes de deixá-la sair. Gravei pouco. Ouvi muito. E, às vezes, ouvir já é um tipo profundo de registro.

Maceió feirou, mas feirou numa versão tímida de si mesma.

Logo depois, segui para Aracaju. Uma viagem de quatro, talvez cinco horas, atravessando paisagens que já começam a se misturar na memória de quem vive em deslocamento contínuo. Cheguei por volta das três da tarde e encontrei uma cidade que parecia querer compensar o silêncio anterior.

Aracaju foi aberta, receptiva, generosa.

Os feirantes falaram com profundidade sobre trabalho, futuro, esperança. Histórias que não cabem só em vídeo, elas ficam rodando dentro da gente. Foi daqueles dias em que tudo rende: conversa, encontro, humanidade.

Aracaju não apenas feirou.

Aracaju abraçou.

À noite, parti para Salvador. Mais uma vez, tentei escrever no ônibus, mas apaguei. O corpo venceu qualquer disciplina narrativa. Dormi como quem desliga uma chave.

E talvez aqui esteja um dos fatos mais importantes que preciso registrar: não estou conseguindo escrever como antes porque agora estou dormindo nas estradas.

Curioso pensar que, para continuar avançando, precisei trocar palavras por sono.

A logística da reta final da viagem me empurrou para esse ritmo quase industrial: uma cidade por madrugada, uma chegada ao amanhecer, um novo dia inteiro pela frente. É intenso, mas também revela algo bonito sobre os próprios limites humanos.

O corpo começa a negociar com a missão.

Agora estou em Salvador, prestes a tomar um banho rápido, reorganizar a mochila e seguir para a rodoviária. Próximo destino: Vitória, no Espírito Santo. Quero comprar essa passagem o quanto antes, manter o movimento, não deixar a viagem perder velocidade.

Porque, quando se está há tantos dias na estrada, parar demais também cansa.

Escrevo tudo isso com uma sensação dupla: a de quem já começa a esquecer detalhes e a de quem luta contra esse esquecimento. Viajar rápido tem esse preço,  as experiências às vezes passam na mesma velocidade dos ônibus.

Por isso escrevo.

Para segurar o que o tempo tenta levar.

O Feirou Brasil entrou numa fase diferente agora. Menos contemplativa, mais estratégica. Menos pausa, mais deslocamento. É como se a viagem tivesse entendido que estamos nos aproximando da reta final e, silenciosamente, tivesse decidido acelerar.

E eu acelero junto.

Cansado? Sim.

Mas cada vez mais certo de que essa travessia está me mostrando um Brasil que não aparece quando a gente fica parado.

Agora é banho, mochila nas costas e estrada outra vez.

O Feirou não espera.