O Pantanal Shopping fechou às 22h e, quando as portas se fecharam, eu fiz o movimento clássico dessa viagem: peguei o caminho da rodoviária. A rodoviária de Cuiabá, aliás, é bem maior do que a de Campo Grande. A área construída impressiona. Espaço grande, gente circulando, aquele clima de quem está sempre indo ou sempre chegando.

Cheguei cedo. O objetivo era simples: esperar e carregar o celular.

Achei uma tomada. Ou melhor, achei uma negociação.

Um boliviano estava carregando o celular ali do meu lado. Na tomada tinha um aviso: “uso exclusivo para clientes do snack bar”. Ele me explicou que tinha consumido e que eu podia usar também. Em troca, eu ofereci o que eu tinha naquele momento: Wi-Fi da empresa de ônibus. Passei a internet para ele. Ele compartilhou a energia. Uma mão lavando a outra, mesmo quando, no fim das contas, eram duas tomadas uma em cima da outra e não fazia diferença real para nenhum dos dois.

Mas o gesto fez sentido.

É isso que sustenta a estrada.

Agora estou aqui, esperando o ônibus para Goiânia.

São entre 16 e 18 horas de viagem.

Chegarei em Goiânia em um horário e dia ingratos para quem está atrás de feira. Segunda-feira. Dia em que, na prática, não tem feira livre acontecendo. Existe uma exceção — a Feira Livre do Setor Fama — mas ela acontece das 7h às 14h, e o horário do ônibus simplesmente não encaixa.

Conclusão inevitável: vou precisar dormir em Goiânia de segunda para terça-feira.

Essa decisão já está tomada. Não por vontade, mas por logística. Quando não tem feira, não adianta forçar. Talvez eu visite algum mercado público, registre alguma coisa pontual, mas a verdade é que estou começando a escolher melhor o que filmar.

Tenho conteúdo demais.

A quantidade de material acumulado já é grande, e editar tudo isso com internet fraca se tornou um gargalo real da viagem. Não faz mais sentido produzir por produzir. O foco agora é outro: registrar o que realmente representa as feiras locais, aquilo que traduz o território, o jeito, o ritmo da cidade.

Menos volume.

Mais precisão.

A estrada ensina isso também: não é sobre fazer tudo.

É sobre fazer o que importa,’no tempo que dá, do jeito que dá.

Agora é esperar o ônibus.

E seguir.