Eu acordo numa cidade que nunca estive antes às cinco da manhã. Não porque eu queira. É o motorista que acende a luz do ônibus, como quem diz: acabou o intervalo entre um lugar e outro, agora você está aqui. Ainda não sei onde é “aqui”, mas já é dia. Sempre chego com o sol nascendo, estratégia antiga, quase instintiva. Cidade com luz parece menos hostil para quem chega sem rosto conhecido.

Desço do ônibus meio torto, meio inteiro. A primeira missão não é turística, não é cultural, não é inspiradora. É fisiológica. Procuro uma academia Smart Fit. Não para malhar — isso pode vir depois — mas para guardar a mochila, escovar os dentes e resolver o básico da vida humana. Ainda sem banho, sigo. O dia começa assim mesmo: meio improvisado, meio possível.

Óculos de grau e de filmar no bolso, carregador no outro, sigo pela cidade ainda com o corpo atrasado em relação à cabeça. Não tomo café da manhã. Nunca. Faço questão de não comer antes da feira. Comer na feira não é detalhe, é método. É ali que o dia começa de verdade.

Abro o site do Feirou, vejo quais feiras estão acontecendo naquele dia. Feira não obedece a lógica de proximidade, obedece ao calendário invisível da cidade. Às vezes é perto, às vezes é longe. Não importa. Vou.

Chego na feira e não ligo a câmera dos óculos. Ainda não. Primeiro eu ando. Cumprimento. Me apresento. Digo o que estou fazendo, explico o projeto, olho no olho. Barraca por barraca. Uma por uma. Sem pressa. Sem performance. O feirante precisa saber antes de ser filmado. Precisa entender. Precisa aceitar. Precisa confiar.

Só depois disso eu começo a gravar.

A feira então muda de tom. Já não sou um estranho com uma câmera piscando nos óculos, sou alguém que passou, falou, voltou. Converso sobre a vida, sobre o trabalho, sobre há quanto tempo aquela barraca existe, quem acordou primeiro, quem montou, quem carrega peso, quem vende, quem sonha pequeno porque o grande já cansou de tentar.

A feira é o Brasil acordado antes do resto do Brasil. Gente que começa a trabalhar às três da manhã sem saber se vai vender tudo, mas sabendo que precisa tentar. É o país que vende para viver, não vive para vender.

Eu circulo tentando viver tudo: comer, conversar, observar, errar o troco, pegar fila, ouvir reclamação, ouvir piada, ouvir conselho não solicitado. Tento chegar quando a feira está sendo montada e sair quando ela está desmontando. O começo e a xepa. O nascer e o cansaço.

Quando a feira acaba, por volta de uma da tarde, começa outra jornada. Volto para algum lugar com wi-fi decente: shopping, lavanderia, café improvisado. A partir daí viro editor. Fico horas ali, das duas da tarde até perto das seis ou sete da noite, cortando vídeo, subindo conteúdo, brigando com internet lenta, esperando upload terminar como quem espera água ferver.

É cansativo. Muito. Mas é ali que o dia se transforma em registro.

Depois disso, vem a parte mais silenciosa: escrever. Um texto por dia. Pelo menos um. Nem sempre sai bonito. Nem sempre sai fácil. Às vezes sai só porque precisa sair. Mas eu escrevo. Porque o que a imagem mostra, o texto aprofunda. O vídeo prova que existiu, o texto tenta explicar por quê.

Importante: esqueci de dizer, antes de sair da rodoviária, compro a passagem do dia seguinte. Sempre. Isso dá uma falsa sensação de controle. A ideia de que amanhã já está decidido, mesmo quando não está.

Voltando ao resumo do meu dia… E então volto para o ônibus. Para a rodoviária. Para o próximo deslocamento. Para repetir tudo de novo em outra cidade, com outros nomes, outros sotaques, outros cheiros, e a mesma dignidade.

Esse é o dia do Feirou Brasil. Um dia repetido quase trinta vezes. Igual no método, completamente diferente na experiência. Um dia feito de passos pequenos, conversas rápidas, decisões improvisadas e um cansaço que não aparece no vídeo.

Não é turismo. Não é aventura romântica. É travessia. É insistência. É o Brasil passando diante dos olhos, enquanto eu tento acompanhar.