Nessa viagem, tenho visto uma cena se repetir dentro dos ônibus: idosos jogando compulsivamente joguinhos de cassino no celular, sem parar, como quem puxa uma alavanca invisível; e pessoas mais jovens com as mãos tremendo, inquietas, sinais claros de abstinência alcoólica durante horas de estrada.

É impossível não enxergar o padrão.

Somos um país viciado.

E não é só no álcool.

É no digital também.

Essas bets empurraram o cassino goela abaixo do Brasil. Cassino sem luz, sem cidade, sem emprego, sem turismo. Cassino solitário, portátil, silencioso: jogado dentro de um ônibus, numa poltrona apertada, drenando renda de quem menos tem.

Se é para ter cassino, que seja como Las Vegas: trazendo turistas, movimentando cidades, gerando trabalho, impostos e dividendos reais para o país.

E, de preferência, operado pelo poder público, como os jogos da Caixa Econômica Federal. Cassinos federais, regulados, com retorno social.

O que temos hoje é o pior dos mundos: empresas de tecnologia operando de fora, levando o dinheiro embora, deixando aqui o vício, o endividamento e o silêncio.

Não geram emprego.

Não geram renda local.

Não geram cuidado.

E o que mais choca é ver influenciadores milionários divulgando isso sem pudor. Gente que já tem dinheiro de sobra, que não precisa de mais nada, vendendo ilusão para quem está fragilizado. Neymar não deve precisar de mais um centavo, mas divulga essa putaria como se fosse entretenimento inocente.

Não é.

Isso é uma questão de saúde pública, soberania e educação.

O Brasil precisa educar, taxar e cuidar dos seus.

Precisa tratar o ambiente digital como território, porque é.

E território sem lei vira terra de ninguém.

Precisamos de uma bancada da tecnologia no Congresso Nacional que olhe para o digital com seriedade, que entenda que ali também se exerce poder, se explora gente e se drena riqueza. Defender o povo hoje passa, necessariamente, por defender a soberania digital.

A estrada mostra o que o discurso esconde.

E o ônibus é um retrato cruel do país que deixamos rodar sem proteção.