Saí de Natal às 22h. Cheguei em João Pessoa por volta de uma e pouco da madrugada. Eu estava no assento 3, primeira fileira do ônibus, janela da direita. Um lugar que costuma enganar o corpo: confortável o suficiente para apagar, traiçoeiro o bastante para te acordar no susto.

O motorista abriu a porta gritando “João Pessoa!” e eu acordei sem acreditar. Não foi um despertar gradual. Foi um choque de realidade. Daqueles que lembram que o tempo passou sem pedir licença.

Uma hora da manhã não tem feira.

Uma hora da manhã não tem Smart Fit.

Uma hora da manhã não tem nada.

Só tem a ideia muito concreta de esperar quatro horas dentro de uma rodoviária.

A primeira providência foi o banheiro. O clássico ritual brasileiro de sobrevivência rodoviária: puxar papel higiênico, fazer a caminhada cuidadosa até o assento da privada e montar aquela proteção improvisada que só quem vive estrada conhece. Não é frescura, é sobrevivência. E, no meu caso, foi até providencial. Fiquei ali uns bons trinta minutos. Um alívio literal e simbólico. Às vezes, o corpo também precisa descarregar antes de continuar.

A rodoviária de João Pessoa, no entanto, parece ter sido pensada exatamente para não permitir descanso. A cada quinze minutos, sem falhar, um alarme sonoro invade o espaço. Uma voz metálica avisa os passageiros que estão a quinze minutos do embarque para conferirem suas passagens. Não importa se é madrugada, se você não vai embarcar, se está apenas tentando existir naquele intervalo morto do dia. O aviso se repete. Sempre igual. Sempre alto. Sempre pontual.

Não é um serviço. É um método.

A intenção não é informar.

É impedir que a rodoviária se torne minimamente habitável para dormir.

Então eu fico ali, acordado à força, observando o presente. Porque quando não há nada para fazer, o futuro começa a se oferecer como distração. E eu começo a projetar.

Minha ideia é fazer João Pessoa e Recife no mesmo dia. São capitais coladas, quase um pulo. Se der certo, à noite sigo de Recife para Maceió. Se tudo encaixar, será um pequeno feito logístico. Um avanço importante para acelerar a viagem e fugir dos transtornos do Carnaval que se aproxima como uma maré inevitável.

Talvez eu não consiga postar tudo em tempo real, como venho fazendo. Talvez alguns relatos cheguem atrasados, escritos já dentro de outro ônibus, em outra cidade, em outro fuso emocional. Mas isso é detalhe pequeno diante do ganho maior: adiantar dias, ganhar fôlego, manter o Feirou Brasil em movimento.

Aqui, sentado na rodoviária, sem feira, sem academia, sem café decente, dá para imaginar mil futuros possíveis. Dá para planejar, recalcular, criar cenários perfeitos. Mas a experiência já me ensinou: não é o futuro imaginado que manda. É o presente real.

E ele sempre encontra um jeito de surpreender.