Não estava nos planos sair andando por Santarém.

Na verdade, nada além de esperar o barco sair parecia possível naquele momento. Eu estava morto de cansado, física e mentalmente, e qualquer gasto de energia soava como desperdício. Mas ficar doze horas parado dentro do barco, no calor, no barulho, na rede, esperando o relógio andar, parecia ainda mais cansativo.

Então resolvi sair.

Saí para lavar roupa, esse pequeno gesto de dignidade que, em viagem longa, vira quase um ritual de sobrevivência.

O plano era simples: deixar as roupas lavando, esperar os 45 minutos de lavagem, mais 45 de secagem, e voltar direto para o barco. Duas horas fora. Só isso.

Mas Santarém não funciona em linha reta.

No Uber, aliás 99, aqui não tem muito Uber, parece que só um app chamado “Maxim” e a 99, enfim, o motorista sugeriu:

— Aproveita e vai dar uma volta na orla do Tapajós. É pertinho.

“Pertinho” é sempre um conceito relativo quando você está cansado. Ainda assim, aceitei. Enquanto as roupas giravam na máquina, resolvi caminhar até a orla e voltar antes do ciclo terminar.

A caminhada deu exatamente 45 minutos.

Na lavanderia, conheci um senhor oriental muito simpático, de Mogi das Cruzes, São Paulo. Brincamos quando voltei no tempo exato:

— Eu falei que ia voltar em 45 minutos.

Ele riu.

— Precisão total.

Brinquei dizendo que era “precisão oriental”, mesmo sabendo que o clichê correto seria britânico. Mas a piada encaixou no momento. Ele estava ali com o filho adolescente, ainda meio perdido na vida, recém-acordado, tentando entender o mundo aos poucos. Cena comum, em qualquer lugar do Brasil.

A lavanderia estava cheia. Acabei lavando as roupas na parte “pesada” do estabelecimento, não na expressa. Mesmo assim, ele manteve o preço:

R$ 20 para lavar, R$ 20 para secar.

Justo. Simples. Brasileiro.

Enquanto as roupas secavam, fui até a padaria indicada por ele. A Bom Pão. Grande, ar-condicionado forte, aquele estilo clássico de padaria que não tem frescura estética, mas tem estrutura. Lembra muito São Paulo.

Antes disso, tinha comido um salgado de presunto e queijo com café numa banquinha perto do porto. Ambos estavam ruins — café horrível, salgado seco. Mas a atendente era tão simpática, tão bem-intencionada, que a experiência acabou sendo boa mesmo assim. Às vezes, a intenção tempera melhor que qualquer receita.

Na padaria, descobri que o self-service era por peso. Já tinha comido dois pães de queijo na fila, precisei ajustar a comanda. Peguei também dois pães na chapa com queijo e peito de peru e, por curiosidade, experimentei um café com chantilly típico dali.

Não era chantilly “em cima” do café. Era um chantilly já misturado com café. Depois, você coloca o leite por cima. O resultado é um café com leite extremamente cremoso, algo que eu nunca tinha visto antes. Surpreendente.

Enquanto isso, o corpo ia dando sinais.

Dor de barriga. Ida constante ao banheiro. Cocô mole. Sem rodeio.

Tudo indica que a água do barco vem direto do rio. Tomar banho, escovar os dentes, lavar o rosto… em algum momento, você acaba ingerindo água do Amazonas. Soma isso ao balanço constante do barco, ao cheiro de diesel, ao calor: o corpo reage.

Agora são meio-dia.

Estou de volta no Barco São Bartolomeu II, esperando dar seis da tarde para finalmente sair. Não pretendo almoçar. Vou ficar na rede, tentando descansar — ou talvez apenas desfalecer um pouco, entre o barulho dos estivadores carregando mercadorias, o calor insuportável e esse cansaço que já não é só físico.

Santarém não estava no plano.

Mas, como quase tudo nessa viagem, acabou entrando na história.

E, às vezes, uma caminhada de 45 minutos, uma lavanderia cheia, um café inesperado e um pouco de caos dizem mais sobre um lugar do que qualquer roteiro turístico.

Feirou Brasil segue.

Mesmo quando o corpo pede pausa.