Vida de rodoviária não é mole, não.
Improviso vira regra. O tempo todo.
A busca pelo Wi-Fi é incessante.
Incessante mesmo.
Quase uma obsessão.
Encontrar internet vira uma negociação silenciosa: com cafés, com empresas de ônibus onde você comprou a passagem, ou, às vezes, com alguma pessoa de bom coração… e bom Wi-Fi. A senha não é só uma senha. É sobrevivência.
Além disso, a rodoviária virou mais uma função essencial da viagem: varal.
Tenho usado a rodoviária para secar minhas roupas. Carregar o celular, acessar a internet e, agora, estender roupa. Como estou tomando banho na Smart Fit, uso essas blusas bem finas, furadinhas. Lavo durante o próprio banho e sigo viagem com elas ainda molhadas. O tempo de espera pelo ônibus faz o resto. Seca tudo ali mesmo.
O suporte de celular que eu usava para fazer lives virou varal improvisado. Está servindo muito mais para pendurar roupa do que para apoiar o telefone. E faz sentido: rodoviária não é lugar de live. É lugar de espera. De adaptação. De gambiarra.
A gente vai se ajustando ao longo da viagem.
Preciso ser honesto: é difícil. Muito difícil.
Falta conforto. Falta previsibilidade.
Você nunca sabe a hora exata de ir ao banheiro, de comer, de carregar o celular. Nunca sabe se a bateria vai dar conta, se a internet vai cair, se o próximo trecho vai sair como planejado.
E junto com isso vem a angústia.
Aquela pergunta silenciosa: será que vou conseguir completar essa viagem?
Será que o próximo trajeto vai dar problema?
É o que eu já falei outras vezes: o pensamento costuma ser muito mais problemático do que os acontecimentos em si. Mas aprender isso não é automático. É treino diário. A estrada vai ensinando, pouco a pouco, a ter mais serenidade para seguir em frente com menos afetação.
Outra coisa curiosa: sempre que estou sozinho em algum canto, alguém senta ao meu lado. É constante. Parece que as pessoas se aproximam naturalmente. Às vezes eu queria ficar sozinho,’por vários motivos. Um deles é simples e nada glamouroso: as roupas penduradas estão fedidas.
Outro dia, uma criança veio brincar com a toalha pendurada. Fiquei apavorado.
— Não, não mexe nisso. Não mexe nisso.
É isso. Vivendo e aprendendo.
A rodoviária não é só um lugar de passagem. Ela vira casa temporária, lavanderia improvisada, escritório precário e espaço de observação humana. Nada é ideal. Mas tudo ensina.
E a viagem segue assim: na base do improviso, da adaptação e da persistência.


